MP-RR denuncia delegado com histórico de quase 50 ações por abuso de autoridade e pede afastamento do cargo.
- Hermes Vissotto

- há 5 horas
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O Ministério Público de Roraima apontou nova falsa comunicação de crime e denunciou padrão de agressividade, misoginia institucionalizada e uso do cargo para intimidação contra cidadãos e mulheres no estado
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BOA VISTA — O Ministério Público do Estado de Roraima (MP-RR) ofereceu uma nova denúncia criminal contra o delegado da Polícia Civil Alexandre Henrique de Matos Lima, de 50 anos. Desta vez, o policial responde pelos crimes de denunciação caluniosa e abuso de autoridade, após acionar indevidamente o aparato policial contra um cidadão em Boa Vista.
O caso reforça o pedido formal de afastamento cautelar do cargo feito pela Promotoria de Justiça, sustentado por um histórico de quase 50 procedimentos disciplinares e criminais acumulados ao longo dos últimos 20 anos.
O episódio do hotel em Boa Vista
De acordo com a denúncia assinada pela promotora de Justiça Lara Von Held, o fato mais recente ocorreu no dia 16 de junho deste ano. Na ocasião, o delegado acionou a Polícia Militar alegando que um hóspede de um hotel na capital roraimense estaria armado e o teria ameaçado.
Mobilizados pelo chamado, cerca de dez policiais militares deslocaram-se ao local. O hóspede franqueou a entrada da equipe e autorizou buscas minuciosas em seu quarto. Nenhuma arma, munição ou item ilícito foi encontrado, e testemunhas presenciais desmentiram a versão do delegado, confirmando que não houve qualquer ameaça.
Segundo o Ministério Público, Alexandre Lima usou seu cargo público para tentar coagir e induzir a prisão sem justa causa do homem, informando falsamente aos militares que já havia lhe dado "voz de prisão".
Histórico recorrente: "Misoginia institucionalizada"
Para o MP-RR, o episódio do hotel não é um caso isolado, mas parte de um quadro estrutural e contínuo de abuso de poder, intimidação e agressividade voltada prioritariamente contra mulheres. Em ações judiciais anteriores nas quais requer a suspensão funcional do delegado, o órgão destacou episódios que evidenciam o que classificou como "misoginia institucionalizada":
Ofensa a policial em serviço (julho/2025): Na sede da Delegacia-Geral da Polícia Civil, uma agente recém-ingressa na corporação solicitou que o delegado retirasse seu veículo particular de uma vaga reservada a viaturas. Alexandre confrontou a servidora e declarou a outro colega que iria "mandar prender essa vagabunda", em explícita tentativa de desqualificação e abuso hierárquico.
Intimidação em condomínio residencial (junho/2026): Ao ser orientado por funcionárias de um condomínio em Boa Vista sobre regras internas do local, o delegado as injuriou com palavrões, tomou o telefone de uma das trabalhadoras para impedi-la de ligar para o síndico e afirmou manter fuzis dentro do próprio carro. A postura ostensiva só cessou quando o subsíndico se identificou como general do Exército, conduta apontada pelo MP como uma "deferência seletiva a homens hierarquicamente valorizados", em contraste com o tratamento agressivo dispensado a mulheres.
Violência doméstica: O delegado responde a processo por violência doméstica praticada contra a própria esposa, que obteve medida protetiva de urgência na Justiça.
Quase 50 procedimentos e impunidade administrativa
Levantamento da Corregedoria-Geral da Polícia Civil de Roraima revela que Alexandre Henrique de Matos Lima responde ou respondeu a pelo menos 47 procedimentos disciplinares e criminais desde 2005. O acervo inclui inquéritos, processos administrativos disciplinados (PADs), sindicâncias e termos circunstanciados de ocorrência (TCOs):
2007: Investigado por suspeita de extorsão no valor de R$ 10 mil para liberar um detido, além de abuso de autoridade e ameaça.
2013: Registro de 11 termos circunstanciados por injúria e ameaça contra diferentes vítimas no mesmo mês.
2015: Alvo de sindicância por abusar do cargo e apresentar-se falsamente como "corregedor de polícia" contra um imigrante venezuelano em uma propriedade rural no interior do estado.
A promotoria enfatizou que a repetição contínua dessas práticas ao longo de duas décadas foi favorecida pelo arquivamento e absolvições no âmbito administrativo, sem que medidas cautelares rigorosas de afastamento tivessem sido adotadas anteriormente.
Medidas cautelares solicitadas pelo MP-RR
Diante da gravidade dos fatos e do risco à integridade física e psicológica de testemunhas e vítimas, o Ministério Público solicitou à Justiça a concessão imediata das seguintes medidas contra o delegado:
Afastamento cautelar das funções públicas como delegado da Polícia Civil de Roraima;
Suspensão do porte de arma de fogo e recolhimento imediato de seu armamento e carteira funcional;
Bloqueio total de acesso aos sistemas eletrônicos de segurança pública do Estado;
Proibição de acesso a repartições policiais e de manter qualquer tipo de contato com as vítimas e testemunhas;
Obrigação de comparecimento mensal em juízo.
Nota do Editor: O Portal Hermes Vissotto reitera que o espaço segue aberto caso a defesa de Alexandre Henrique de Matos Lima ou a Direção-Geral da Polícia Civil de Roraima desejem se manifestar oficialmente sobre as acusações e requerimentos do Ministério Público.

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