Amazônia Refém: Como mais de 30 facções transformaram a floresta em uma holding do crime integrado.
- Hermes Vissotto

- há 1 dia
- 2 min de leitura

Relatório do Instituto Igarapé revela a transformação estrutural do crime organizado na América Latina, que migrou do narcotráfico puro para uma complexa e integrada economia ilícita transnacional.
BOA VISTA - A Bacia Amazônica consolidou-se em definitivo como uma das principais e mais complexas fronteiras de expansão do crime organizado em toda a América Latina. Hoje, pelo menos 30 grupos armados, englobando desde grandes facções brasileiras a milícias e dissidências estrangeiras, disputam de forma violenta o controle territorial, de rios e de rotas logísticas na região. As conclusões constam no detalhado relatório "From Narco Cartels to Criminal Networks: The Structural Transformation of Organized Crime in Latin America and the Caribbean", elaborado e divulgado pelo Instituto Igarapé.
O levantamento lança um alerta contundente sobre a metamorfose dessas organizações. Conforme apontam os pesquisadores, as redes criminosas romperam com o modelo tradicional focado majoritariamente no tráfico internacional de entorpecentes. Para maximizar lucros e diluir riscos, os grupos estruturaram o que a comunidade de inteligência classifica como uma "economia criminosa integrada".
"O crime organizado na Amazônia deixou de operar em nichos isolados. Os rios, pistas de pouso clandestinas e corridors transfronteiriços tornaram-se infraestruturas de uso compartilhado e disputado por mercados ilegais que se complementam, gerando fluxos financeiros bilionários e um poder de coerção local sem precedentes."
Infiltração e camuflagem na economia formal
Um dos pontos mais sensíveis trazidos pelo Instituto Igarapé é a capacidade dessas redes de se infiltrarem em setores consolidados da economia formal. O relatório indica que o dinheiro oriundo do narcotráfico e de crimes ambientais é sistematicamente lavado por meio de investimentos na agropecuária, no comércio de combustíveis e em cadeias de suprimentos de mineração legalizada.
Além disso, o controle sobre operações portuárias e transporte fluvial cria gargalos severos de fiscalização. Criminosos coagem ou corrompem operadores de terminais e falsificam documentações comerciais para ocultar cargas ilícitas (como ouro e cocaína) em meio a exportações legítimas de grãos e carnes que seguem em direção à Europa e à Ásia. Essa simbiose dificulta significativamente as ações tradicionais de rastreamento de produtos e auditoria fiscal.
O desafio das políticas públicas: Ir além do policiamento
Para o Instituto Igarapé, as respostas estatais vigentes, predominantemente focadas em operações militares esporádicas, prisões em massa e apreensões pontuais de mercadorias, têm se mostrado insuficientes e paliativas diante do gigantismo das redes transnacionais. O combate eficaz exige um redesenho completo de estratégia.
O estudo defende de maneira enfática que a prioridade governamental deve migrar para ações de inteligência financeira de alta complexidade, combate incisivo à lavagem de capitais e, sobretudo, uma sólida cooperação internacional entre as nações que compartilham a Bacia Amazônica. Segundo os especialistas, a métrica de sucesso das políticas de segurança pública não deve mais ser mensurada apenas pela contagem de prisões, mas sim pela capacidade real do Estado de desarticular o ecossistema econômico do crime, asfixiar os fluxos de capitais e recuperar os ativos desviados.

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