Acampamento de garimpo ilegal é encontrado escondido na região do Flexal, próximo à Cachoeira do Urucá.
- Hermes Vissotto

- 28 de jul.
- 3 min de leitura

BOA VISTA — Fotos obtidas recentemente mostram a estrutura de um acampamento de garimpo ilegal montado de forma escondida na região da comunidade Flexal, no município de Uiramutã, ao Norte de Roraima. A base clandestina está localizada nas proximidades da Cachoeira do Urucá, ponto turístico da Terra Indígena Raposa Serra do Sol que teve suas águas, historicamente cristalinas e de tom esverdeado, tomadas por uma lama densa e barrenta devido à exploração mineral descontrolada.

Táticas de camuflagem e esconderijo de equipamentos
O acampamento foi localizado logo após os garimpeiros abandonarem o local e esconderem máquinas e materiais na vegetação fechada. O acesso a essa área de garimpo, situada perto da comunidade Urucá, é feito por meio da rodovia RR-171.
Segundo relatos de um morador da comunidade Flexal, que preferiu não se identificar por motivos de segurança, os invasores utilizam táticas específicas para burlar as fiscalizações e manter a estrutura ativa na região:
"Eles enterram o motor. A fiscalização passa por cima e não acha o maquinário porque está enterrado. Quando a fiscalização vai embora, eles desenterram e continuam trabalhando", revelou o morador.
A prática de enterrar o maquinário e o apoio de redes de informantes ajudam os invasores a retomar a exploração ilegal logo após a saída dos agentes de proteção ambiental.
Destruição ambiental e contaminação hídrica
A instalação do acampamento e o avanço da atividade de garimpo acima da queda d'água têm provocado severos danos ambientais no igarapé Urucá, que deságua no rio Cotingo. Para extrair o ouro, os garimpeiros utilizam bombas de água, motores e explosivos para romper as rochas nas serras. Além do assoreamento dos rios, o mercúrio empregado na separação do minério contamina a água e a fauna aquática, colocando em risco a subsistência das comunidades da região.
A alteração do cenário natural gera indignação e preocupação entre os moradores locais:
"É muito triste, de partir o coração. Maquinários do garimpo acima da cachoeira destroem a serra e jogam isso aí na cachoeira", lamentou o morador da comunidade Flexal.
A presença do acampamento reflete um problema crônico na Raposa Serra do Sol, onde lideranças estimam a presença de centenas de invasores. Além da comunidade Urucá e do Flexal, áreas como Napoleão, Tarame, Raposa I e Raposa II também registram os impactos da exploração. Informações anteriores encaminhadas pela Prefeitura de Uiramutã a órgãos ambientais e ao Ministério Público Federal (MPF) já alertavam para o assoreamento dos cursos d'água e a perda da cobertura vegetal nativa.
Atuação das autoridades e órgãos responsáveis
Diante do surgimento de novas evidências do acampamento e dos danos ambientais, as entidades e órgãos públicos se manifestaram:
Conselho Indígena de Roraima (CIR): Confirmou que acompanha a situação e que o seu departamento jurídico notificará formalmente a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Polícia Federal (PF) e o IBAMA sobre as invasões. A entidade alerta ainda para os impactos sociais do garimpo, como ameaças a moradores e aliciamento de jovens para trabalho degradante.
Funai: Declarou em nota que está acompanhando as informações sobre a retomada das atividades ilícitas na região do Urucá e Urucazinho.
IBAMA: Informou que o caso está sob apuração e que articula junto ao MPF, à Polícia Federal e à Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) a criação de um plano integrado de combate ao garimpo ilegal na região.
Polícia Federal: Afirmou que há investigações em andamento e ressaltou que não prestará detalhes adicionais no momento por conta do sigilo dos procedimentos.
Governo de Roraima: Reiterou que as ações de fiscalização, investigação e repressão ao garimpo ilegal dentro de terras indígenas demarcadas são de competência federal, cabendo a atribuição aos órgãos da União.

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