A Virada de 1990: Roraima e Minas Gerais Inauguram a Eleição Direta de Mulheres no Senado Federal.
- Hermes Vissotto

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As eleições gerais de outubro de 1990 representaram um divisor de águas na representatividade política feminina no Brasil. Foi no primeiro pleito geral após a promulgação da Constituição de 1988 que a história do Congresso Nacional mudou: pela primeira vez, o voto direto nas urnas elegeu mulheres para ocupar cadeiras no Senado Federal.
O feito histórico foi compartilhado simultaneamente por dois estados brasileiros: Minas Gerais e Roraima.
Enquanto os mineiros elegeram a advogada e jornalista Júnia Marise, o eleitorado roraimense consagrou Marluce Pinto, marcando o protagonismo do jovem estado recém-transformado em unidade federativa na vanguarda da política nacional.
A Diferença entre Assumir e Ser Eleita pelas Urnas
Para entender a dimensão do marco de 1990, é preciso resgatar a cronologia do Senado:
Eunice Michiles (AM - 1979): Foi a primeira mulher a exercer o mandato de senadora na história do Brasil. No entanto, ela chegou à Casa na condição de suplente, assumindo a vaga após o falecimento do titular João Bosco de Lima.
Laélia de Alcântara (AC - 1981): Primeira mulher negra a ocupar o cargo de senadora, também assumiu como suplente convocada.
Júnia Marise (MG) e Marluce Pinto (RR) - 1990: Romperam a barreira histórica ao serem titulares eleitas diretamente pelo povo, tomando posse em 1º de fevereiro de 1991.
Marluce Pinto: A Pioneira que Representou Roraima na Alta Câmara
1. Da Terra Alencarina ao Extremo Norte
Nascida Maria Marluce Moreira Pinto em 3 de junho de 1938, no município de Jaguaruana, Ceará, mudou-se jovem para Fortaleza, onde concluiu a educação básica no Colégio São João e graduou-se em Gerência Empresarial em 1970.
Casou-se com o engenheiro, oficial da Aeronáutica e futuro líder político Ottomar de Sousa Pinto. Com a nomeação de Ottomar como governador do então Território Federal de Roraima no final da década de 1970, Marluce estabeleceu sua vida pública e política no Extremo Norte do Brasil.
2. A Atuação Social e a Assembleia Nacional Constituinte
Antes de chegar ao Senado, Marluce exerceu papel ativo na gestão pública regional. Como primeira-dama do Território, esteve à frente da coordenação social e do Programa Nacional do Voluntariado.
Sua estreia em mandatos eletivos ocorreu em 1986, quando foi eleita deputada federal por Roraima. Como deputada constituinte (1987-1991), participou ativamente dos debates e da redação da Constituição Cidadã de 1988, defendendo as pautas do desenvolvimento regional e os direitos das mulheres e da família.
3. A Conquista do Senado e o Bi-mandato (1991–2003)
Nas eleições de 1990, com Roraima já elevado à categoria de Estado, Marluce Pinto disputou uma das vagas para o Senado pelo PTB e foi vitoriosa.
Pioneirismo: Tornou-se a primeira mulher do Norte do Brasil eleita senadora da República.
Reeleição: Sua atuação consistente garantiu sua reeleição nas eleições estaduais de 1994 (já filiada ao PMDB), permanecendo no Senado por dois mandatos consecutivos (12 anos), de 1º de fevereiro de 1991 a 1º de fevereiro de 2003.
Produção Legislativa: Destacou-se como uma das senadoras mais ativas da Casa, com mais de 50 projetos de lei apresentados e forte atuação em comissões voltadas para a integração da Amazônia, infraestrutura e causas sociais.
4. Legado Familiar e Trajetória Política
Marluce Pinto é mãe de Otília Pinto (que foi prefeita do município de Rorainópolis) e de Marília Pinto (ex-deputada estadual de Roraima), consolidando uma trajetória familiar de inserção feminina nas decisões públicas de Roraima.
Mesmo após deixar o Senado em 2003 e disputar nova candidatura em 2010 (onde obteve expressivos 90.938 votos), Marluce permanece registrada nos anais da história do Congresso Nacional como o símbolo do pioneirismo roraimense na conquista da igualdade de representação na alta política brasileira.

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