Empreendedorismo sem Fronteiras: Refugiados e Migrantes Fortalecem a Economia de Roraima Através de Capacitação Intensiva.
- Hermes Vissotto

- há 2 dias
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BOA VISTA — Em um cenário de reconstrução e busca por autonomia financeira, o empreendedorismo tem se tornado a principal ferramenta de integração socioeconômica para pessoas refugiadas e migrantes em Roraima. Recentemente, Boa Vista sediou a terceira edição do Empretec voltada para esse público, um seminário intensivo desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e executado no Brasil exclusivamente pelo Sebrae, em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
A iniciativa formou 25 participantes, reunindo refugiados de diversas nacionalidades, empreendedores indígenas, lideranças comunitárias e representantes de organizações socioassistenciais. Funcionários do ACNUR também integraram a turma, tornando-se os chamados “Empretecos”.
Gastronomia e Intercâmbio Cultural
Para além do impacto econômico, a presença de migrantes e refugiados traz um enriquecimento cultural visível no dia a dia roraimense. Estabelecimentos de comida típica, músicas em espanhol e a oferta de produtos artesanais já integram a identidade local.
Um exemplo dessa sinergia é a história de Vanessa, que há quatro anos vive em Boa Vista e empreende no ramo gastronômico com a produção de arepas, alimento tradicional venezuelano feito à base de milho.
"É uma interculturalidade trazer a gastronomia venezuelana para o Brasil. É um intercâmbio cultural", destaca Vanessa.
Para aprimorar a gestão da sua empresa, Vanessa buscou os comportamentos empreendedores no Empretec, onde obteve cinco selos de destaque em seu certificado.
"Consegui entender os desafios que posso ter que enfrentar e ter metas claras. O Empretec me trouxe muita clareza. Quero consolidar meu negócio e posicioná-lo para que seja sustentável", comemora a empreendedora.
Impacto Direto na Renda e Gestão Financeira
Com uma carga horária de 60 horas baseada em jogos, exercícios práticos e vivências comportamentais, a capacitação foi ministrada pelos professores Nirval Queiroz e Giancarlo Kohler. O impacto prático nos negócios locais foi imediato para os formandos.
Josneida, outra participante da turma, destacou o diferencial da imersão em relação a outras capacitações:
"Pela primeira vez meu trabalho aumentou e, consequentemente, minha renda triplicou. Consegui quitar todas as minhas dívidas fixas. Mudei vários hábitos prejudiciais relacionados à minha forma de trabalhar", conta.
A mesma determinação é compartilhada por Joselin, que trabalha com a confecção de doces e bolos. Ela considera a conclusão do curso uma vitória decisiva para o futuro de seu negócio: "Vou aplicar todo o conhecimento daqui", afirma.
Empreendedorismo Feminino e Sustentabilidade Local
Segundo o chefe do escritório do ACNUR em Roraima, Rafael Levy, os empreendimentos liderados por refugiados vão além do sustento individual:
"O empreendedorismo tem se consolidado como uma das principais estratégias para que pessoas refugiadas possam gerar renda, buscar autonomia e estabilização socioeconômica no Brasil. Aqui em Roraima, estes estabelecimentos geram renda, arrecadação para o estado, empregam outras pessoas e já são parte da cultura local", ressalta Levy.
Dados da pesquisa realizada pela Innovare Pesquisa (em parceria com a Plataforma Refugiados Empreendedores do ACNUR e o Pacto Global da ONU) revelam que o perfil dos empreendedores refugiados no Brasil é majoritariamente feminino (71%), com média de idade de 40 anos e residência no país superior a três anos (95%). Esse cenário evidencia a maturidade e a determinação de mulheres que buscam na gestão de seus próprios negócios a chave para a estabilidade no país.
Pioneirismo Global em Boa Vista
A implementação do Empretec com recorte específico para migração e refúgio em Roraima coloca a capital no mapa das boas práticas globais de acolhimento e inclusão. Boa Vista foi a segunda localidade no mundo a realizar uma turma dedicada a esse público.
A parceria começou em 2024, com o apoio do Serviço Jesuítas para Migrantes e Refugiados (SJMR), e a edição mais recente (junho de 2026) contou com a colaboração da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
O clima de integração marcou o encerramento da turma, reunindo trocas de experiências, homenagens aos melhores planos de negócios e apoio mútuo. George Messias da Silva, profissional de TI do ACNUR que participou do seminário, sintetizou o sentimento geral:
"Fiz o Empretec junto com as pessoas refugiadas. É muito bom ver o quanto estão correndo atrás, buscando aprender, progredir e usando o Empretec como meio de sair desta situação. É maravilhoso e gratificante ver o tanto que eles se empolgam e como conseguimos trabalhar juntos", conclui.

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