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Do Campo à Mesa: O Invisível Banquete dos Agrotóxicos no Brasil

  • Foto do escritor: Hermes Vissotto
    Hermes Vissotto
  • 17 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura
Foto: Alberto César Araújo / Amazonia Real
Foto: Alberto César Araújo / Amazonia Real

O Brasil vive hoje um paradoxo: enquanto batemos recordes de produtividade agrícola e sediamos cúpulas mundiais sobre o clima, nossos pratos recebem uma carga química sem precedentes. Em 2025, atingimos a marca histórica de 725 novos agrotóxicos autorizados, um volume que acende o alerta para consumidores, médicos e gestores públicos.


A aceleração nas liberações, que saltou de 139 produtos em 2015 para 725 em 2025, não indica necessariamente tecnologia nova. A maioria desses registros são genéricos, variações de substâncias antigas e baratas que já foram proibidas em outros países, mas que continuam circulando no solo brasileiro.


Os números mostram que o recorde foi quebrado sucessivamente quase todos os anos a partir de 2016.

Ano

Total de Registros

Contexto Político/Legal

2015

139

Ritmo histórico padrão.

2016

277

Início da aceleração (Governo Temer).

2017

405

Primeira vez que ultrapassa a marca de 400.

2018

450

Recorde até então.

2019

474

Início do Governo Bolsonaro.

2020

493

Manutenção da alta.

2021

562

Aumento expressivo em produtos "genéricos".

2022

652

Recorde histórico do período anterior.

2023

505

Redução pontual, mas ainda um dos maiores da série.

2024

663

Novo recorde absoluto (Governo Lula).

2025

725*

Maior número da história (até início de dez/2025).


O resultado é uma dependência química que nos leva a utilizar cerca de 10 litros de veneno por hectare, um índice muito superior ao de potências como Estados Unidos e China.


Existe um custo "escondido" no preço baixo de alguns alimentos. O agronegócio gera riqueza, mas as chamadas externalidades recaem sobre o sistema público de saúde:

  • O Déficit da Saúde: Para cada 1 dólar gasto com agrotóxicos, o SUS gasta cerca de 1,28 dólar tratando doenças ligadas à exposição química (intoxicações, cânceres e problemas reprodutivos).

  • A Conta de R$ 22 Bilhões: Entre gastos com saúde e isenções fiscais concedidas à indústria de pesticidas, o Brasil perde anualmente uma fortuna que poderia ser investida em educação e saneamento.


Onde o Veneno se Esconde no seu Prato

O agrotóxico não está apenas na "casca" da maçã. Ele está integrado à cadeia produtiva de formas que o consumidor muitas vezes não percebe:

  • Frutas e Hortaliças: Pimentão, uva e morango são os mais vulneráveis. Muitos dos químicos usados são sistêmicos, ou seja, circulam por dentro do alimento.

  • O Perigo nos Grãos: A base da nossa dieta (arroz, feijão e trigo) é a que mais recebe agrotóxicos. O glifosato, por exemplo, é encontrado frequentemente em massas, biscoitos e pães.

  • Ultraprocessados: Engana-se quem pensa que o processamento industrial elimina os químicos. Testes recentes mostram que quase 60% dos alimentos prontos (como salgadinhos e empanados) carregam resíduos de pesticidas.


4. Guia de Redução de Danos para o Consumidor

Enquanto políticas como o Pronara (Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos) tentam mudar o cenário em Brasília, você pode tomar decisões conscientes hoje:

Categoria

Ação Recomendada

Hortifruti

Priorize alimentos da safra. Eles são mais resistentes e usam menos química.

Limpeza

Use bicarbonato de sódio (1 colher/litro) por 15 min. Remove resíduos superficiais.

Escolhas

Sempre que puder, substitua o trigo convencional pelo orgânico ou por cereais integrais de pequenos produtores.

O "Caminho do Meio"

Procure feiras de agroecologia. Nem todo alimento sem veneno precisa ter o selo caro de "orgânico" de supermercado.


O cenário atual exige mais do que apenas lavar bem os alimentos; exige cidadania alimentar. Compreender que a nossa saúde está diretamente ligada à forma como o campo é tratado é o primeiro passo para cobrarmos políticas que priorizem a vida em vez do volume de exportação.


O "Cabo de Guerra" em Brasília

Nos corredores do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal o clima é de contra-ataque. Para o leitor da Revista JS, é essencial entender que não existe apenas uma "avenida aberta" para o veneno; há um intenso embate de modelos de país que está sendo decidido agora.


A Resistência no Judiciário: A ADI 7.701

O movimento mais forte hoje não ocorre apenas nas tribunas, mas no Supremo Tribunal Federal (STF). A chamada Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.701 questiona a "Lei dos Agrotóxicos" (Lei 14.785/2023), aprovada no final de 2023.

  • O que dizem: Partidos como PT, PSOL e REDE, junto a entidades como o Greenpeace e a CONAQ (Quilombolas), argumentam que a lei viola o direito à saúde ao centralizar o poder no Ministério da Agricultura (MAPA) e reduzir a influência técnica da Anvisa e do Ibama.

  • O objetivo: Derrubar os trechos que facilitam registros de substâncias cancerígenas e retirar a autonomia exclusiva do MAPA sobre o que é "perigoso" ou não.


A Resposta do Executivo: O "Decreto Pronara"

Em 30 de junho de 2025, o governo federal deu um passo estratégico ao assinar o Decreto nº 12.538, que instituiu oficialmente o Pronara (Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos).

  • Estratégia: Como o Congresso tem uma maioria ligada ao agronegócio tradicional, o governo utilizou um decreto para criar mecanismos de incentivo à agroecologia e aos bioinsumos (defensivos naturais).

  • Impacto Prático: O Pronara foca em fornecer assistência técnica para que agricultores familiares abandonem o uso de químicos e em criar zonas de monitoramento rigoroso em águas e solos, combatendo as "zonas de sacrifício" que mencionamos anteriormente.


As Frentes Parlamentares: A Voz da Alternativa

Dentro do Congresso, a luta é liderada por grupos específicos que buscam equilibrar o jogo político:

  • Frente Parlamentar da Agroecologia e Produção Orgânica: Coordenada por deputados como Nilto Tatto (PT-SP), esta frente atua como um escudo contra novas flexibilizações. Em 2025, eles focaram na aprovação de incentivos fiscais para alimentos orgânicos (o inverso da "bolsa-agrotóxico").

  • Projetos de Lei Pontuais: Um exemplo é o PL 4057/2025, que busca proteger a meliponicultura (abelhas sem ferrão), criando restrições severas de pulverização em áreas de preservação e polinização, atacando indiretamente o uso indiscriminado de inseticidas.


O Movimento da Sociedade Civil

Fora dos gabinetes, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida mantém a pressão popular. Em dezembro de 2025, o evento Agroecologia 2025 reuniu mais de 1.500 lideranças e especialistas para lançar diretrizes de soberania alimentar, provando que o mercado de orgânicos e bioinsumos já é uma realidade econômica crescente, não apenas um desejo ambiental.


Veredito do Especialista: O momento é de transição. O recorde de venenos é o último esforço de um modelo antigo que resiste às novas normas de saúde e sustentabilidade que estão batendo à porta.


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