Desdobramentos da invasão à UFRR: Pedido de investigação e acusações de racismo geram nova crise.


Os episódios de invasão e destruição de materiais no campus Paricarana da Universidade Federal de Roraima (UFRR) ganharam novos desdobramentos de grande repercussão política e jurídica no estado. O caso, que teve início após a entrada de um deputado estadual e uma influenciadora digital no Centro Acadêmico de Direito, agora envolve um pedido de aprofundamento das investigações pela Polícia Federal (PF) e um boletim de ocorrência por injúria racial feito por um advogado ativista.
Cronologia dos episódios no campus Paricarana:
Sexta-feira (16): O deputado Marcinho Belota e a blogueira Athally Albuquerque entraram no bloco de Direito da UFRR e rasgaram panfletos informativos elaborados por estudantes. O material trazia críticas e posicionamentos contrários ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Os políticos alegaram tratar-se de "fake news" e sustentaram ter orientação do setor jurídico para averiguar denúncias no local.
Sábado (17): Um segundo grupo de cerca de cinco pessoas invadiu os blocos de Direito e do Centro de Ciências Humanas (CCH). Os indivíduos interromperam aulas, intimidaram servidoras, retiraram cartazes e arrancaram a bandeira de um movimento estudantil antifascista. Testemunhas relataram que integrantes deste grupo estariam armados, embora tenham alegado à Polícia Militar que atuavam apenas para "fiscalizar propaganda político-partidária".
Diante da gravidade, a reitoria da UFRR repudiou as ações, classificando-as como atos de intimidação e violência, e solicitou reforço na segurança patrimonial e acadêmica diretamente à PF, à Polícia Rodoviária Federal (PRF) e à Força Nacional. O MPE fixou o prazo de cinco dias para que a universidade informe formalmente se havia regulamentação ou autorização prévia para a colagem dos panfletos de estudantes, ressaltando contudo que a instituição já havia indeferido pedidos anteriores de remoção dos materiais por entender que os panfletos respeitavam a legislação eleitoral e a liberdade de expressão.
Advogado acusa deputado de "racismo recreativo" após bate-boca

Paralelamente às apurações do MPE e da PF, o caso desdobrou-se na esfera criminal da Polícia Civil. O advogado Yano Rodrigues da Silva, de 25 anos, que é ativista climático e conselheiro do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial, registrou um Boletim de Ocorrência contra o deputado Marcinho Belota.
Durante a invasão na UFRR, Yano e o deputado protagonizaram um bate-boca. Na mesma noite, Belota publicou em seu perfil oficial do Instagram (que conta com cerca de 298 mil seguidores) um vídeo em que utilizava um filtro que alterava seu cabelo para um estilo volumoso e cacheado, dizendo: "Querido, pra que essa agressividade? Meu Deus!", antes de mandar um beijo.
Yano afirma que o parlamentar utilizou a imagem para ridicularizar publicamente seu cabelo afro estilo black power:
"O deputado poderia muito bem ter discutido comigo em relação à minha posição política... Ele preferiu fazer a utilização de um recurso racista que nós chamamos de racismo recreativo, que é quando você utiliza de características das pessoas negras (...) para descaracterizar a humanidade daquela pessoa."
O advogado informou que passou a ser alvo de ataques e ameaças nas redes sociais após o episódio, incluindo comentários de seguidores sugerindo "pôr fogo" no seu cabelo. Yano também cobrou um posicionamento público da Assembleia Legislativa de Roraima (ALE-RR), pontuando que o parlamentar utiliza recursos de verba indenizatória de gabinete para manter o alcance de suas redes sociais.
O que dizem os citados
Marcinho Belota (PL): Declarou estar "ansioso" pelo início das investigações do MPE/PF, argumentando que a destruição de panfletos aponta responsabilidade sobre a criação de "fake news". Em nota sobre a acusação de racismo, o deputado repudiou categoricamente qualquer discriminação, afirmando que o vídeo no Instagram se tratou apenas de uma "manifestação descontraída" com um filtro da rede social, sem intenção de ofender ou menosprezar o advogado em razão de sua cor ou traços físicos.
Athally Albuquerque (Republicanos): Negou que tenha havido invasão e sustentou ter atuado sob orientação jurídica interna para checar denúncias.
UFRR: Reiterou que o ambiente acadêmico deve ser pautado pela pluralidade de ideias, liberdade de expressão e convivência democrática. Informou ainda que adotou providências para garantir a segurança da comunidade acadêmica junto às forças federais.

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