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Ameaça do El Niño: Comunidades Indígenas de Roraima Reorganizam Rotina de Plantio e Manejo do Fogo.

  • Foto do escritor: Hermes Vissotto
    Hermes Vissotto
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura
ARTE SOBRE IMAGEM DA NASA
ARTE SOBRE IMAGEM DA NASA

BOA VISTA - O avanço e a previsão de intensificação do fenômeno climático El Niño acenderam o sinal de alerta nas comunidades indígenas de Roraima. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño deve ganhar força ao longo do segundo semestre de 2026 e se estender até o início de 2027, trazendo para o estado projeções de temperaturas mais elevadas, redução do volume de chuvas e alto risco de incêndios florestais.  


Diante do cenário de estiagem severa, que historicamente atinge Roraima entre os meses de outubro e março, o avanço do fenômeno coloca em risco o ecossistema do lavrado (a savana roraimense) e as áreas de mata fechada. Como resposta preventiva, povos indígenas que vivem da agricultura familiar começaram a alterar profundamente suas rotinas de trabalho no campo.  


Treinamento e Manejo Integrado do Fogo

Para evitar que o fogo tradicionalmente utilizado no preparo da terra se transforme em incêndios fora de controle, cerca de 100 moradores, entre agricultores e estudantes, da comunidade Campo Alegre, localidade pertencente à Terra Indígena São Marcos (a 50 km da capital Boa Vista), participaram de capacitações em prevenção e combate a incêndios. A iniciativa já atendeu sete comunidades roraimenses.  


Promovidas em parceria pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), as oficinas abordam o Manejo Integrado do Fogo. A técnica orienta sobre o momento e as formas corretas para o uso de queimadas prescritas ou controladas na limpeza de áreas e na renovação de pastagens.  


"As comunidades tradicionais que usam muito fogo precisam estar cientes de que esse fogo colocado num período errado pode se tornar um grande incêndio florestal, trazendo muitas consequências não agradáveis à população", alertou Bruno Eduardo Wapichana, supervisor estadual das Brigadas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo/Ibama).  


Além da gestão do fogo, as oficinas também trabalham planejamento agrícola, reciclagem e o descarte adequado de resíduos.  


Mudança de Território no Plantio e Desafios da Estiagem

Buscando preservar as áreas florestais e conter o desmatamento ao longo dos leitos dos rios, comunidades como a Campo Alegre tomaram a decisão de transferir parte de suas roças para as regiões de lavrado. No entanto, a transição trouxe novos desafios produtivos.  

No lavrado, a agricultura é altamente dependente do regime natural de chuvas durante o inverno. Com a chegada da estação seca e o aumento do calor provocado pelo El Niño, a produção fica vulnerável. O segundo tuxaua da comunidade Campo Alegre, Jadeson Barista da Silva, relata que o aquecimento do solo já compromete culturas fundamentais para a subsistência local:  


"Nas roças que transferimos para o lavrado, dependemos da chuva. Quando chega o período de calor extremo, as batatas das manivas chegam a cozinhar debaixo da terra por conta do calor, o que nos impede de colher a produção. É o efeito direto do aquecimento global", desabafou a liderança.  


Preocupação com a Subsistência e a Renda Familiar

Para os produtores locais, a falta de água ameaça a sobrevivência das lavouras diversificadas. O agricultor indígena Auquino Pereira Augusto, que cultiva cerca de 60 variedades de alimentos em cinco hectares no lavrado — incluindo graviola, banana, mamão, café, feijão e hortaliças —, expressou forte apreensão com a proximidade da estiagem:  


"A nossa área de lavrado é muito seca e temos muitas plantas para regar todos os dias. Minha preocupação é não ter água suficiente. Do jeito que vejo, corro o risco de perder quase tudo".  


A adaptação contínua e a transmissão dos saberes ecológicos para os jovens têm sido a principal estratégia dos povos tradicionais para enfrentar as transformações do clima em Roraima e garantir a proteção dos territórios para as futuras gerações.  


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