Com colheita iniciada, Roraima enfrenta risco de redução de 50% na safra de soja devido à estiagem severa.
- Hermes Vissotto

- há 13 horas
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Impactado pela força do fenômeno El Niño e pela escassez de chuvas no ciclo produtivo, estado pode deixar de colher cerca de 260 mil toneladas. Prejuízo indireto para a economia roraimense é estimado em até R$ 2 bilhões.
BOA VISTA - A colheita da safra de soja em Roraima teve início nos últimos dias sob um cenário de forte preocupação técnica e financeira para o setor produtivo estadual. A falta de precipitações regulares durante o período decisivo de desenvolvimento das lavouras deve cortar a produtividade do grão praticamente pela metade em relação às projeções iniciais para este ciclo.
A estimativa preliminar para a safra previa ultrapassar a marca histórica de 500 mil toneladas. No entanto, avaliações da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja) indicam que o estado pode deixar de colher aproximadamente 260 mil toneladas. Para efeito de comparação, na safra do ano passado Roraima registrou uma colheita superior a 430 mil toneladas.
Impacto econômico bilionário no estado
Além da perda direta de volume no campo, os desdobramentos financeiros da estiagem projetam um cenário crítico para a economia regional:
Perdas diretas na lavoura: A Aprosoja calcula que a frustração de safra causará uma frustração de receita direta no campo na ordem de R$ 500 milhões.
Impacto na cadeia econômica: Considerando os efeitos em movimentação de fretes, fornecimento de insumos, prestação de serviços, comércio e arrecadação tributária, o prejuízo global para a economia de Roraima pode superar R$ 2 bilhões.
Influência do El Niño e estresse hídrico
A severidade da estiagem no estado está diretamente associada à atipicidade climática provocada pelo fenômeno El Niño, que alterou profundamente o regime de chuvas na Região Norte. Alertas prévios emitidos pela Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh) já indicavam a vulnerabilidade do período.
Tecnicamente, a disponibilidade de água é um fator crítico, sobretudo nas fases fisiológicas de florescimento e enchimento dos grãos. A ausência prolongada de umidade reduz drasticamente a capacidade do vegetal em absorver e transportar nutrientes essenciais. Na prática, isso resulta em um menor número de vagens formadas e em grãos de menor peso e calibre, derrubando a rentabilidade por hectare.
Manejo no campo e resiliência do produtor
Nas áreas rurais da capital, como na zona rural de Boa Vista, os maquinários agrícolas já iniciaram a retirada dos primeiros lotes. Na Fazenda Flórida do Norte, a operação ocorre de forma escalonada, respeitando os diferentes pontos de maturação dos talhões.
O produtor rural Lucas Cavalca explicou que, embora as primeiras áreas colhidas, plantadas no início do ciclo, tenham apresentado resultados satisfatórios, a tendência para a sequência do trabalho é de queda acentuada no rendimento.
"A gente está tendo uma boa produtividade [nas primeiras áreas], poderia ser melhor, mas o estado sofreu muito com a seca este ano. A tendência daqui para frente é que infelizmente não seja um ano muito bom", destacou o agricultor.
Segundo o produtor, o ciclo médio da cultivar utilizada é de cerca de 90 dias, mas a antecipação do corte das chuvas pegou o setor de surpresa. Com perdas estimadas na propriedade em pelo menos 30%, podendo aumentar nos talhões mais castigados, ele reforça a necessidade de capacidade de adaptação.
"A gente sabia da possibilidade do El Niño, mas acho que ninguém previu que ia cortar tão cedo a chuva. É mais um desafio que a gente vai ter que enfrentar. O agricultor é resiliente, não desiste fácil", pontuou Lucas.
Expansão de área versus gargalo climático
O revés climático ocorre em um momento de expansão da fronteira agrícola roraimense. Dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi) apontam que Roraima registrou 132.421 hectares cultivados com a cultura em 2025, com previsão oficial de crescimento para 144.893 hectares em 2026.
Apesar do avanço na área plantada, a instabilidade pluviométrica impõe aos produtores e às instituições governamentais a necessidade de intensificar pesquisas voltadas a cultivares mais tolerantes ao estresse térmico e hídrico, além do fortalecimento de políticas de gestão ambiental e irrigação para garantir a sustentabilidade do agronegócio roraimense.

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