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ESQUEMA DE PISTOLAGEM E INFILTRAÇÃO: Áudios revelam grupo de PMs financiados pelo garimpo ilegal na Terra Yanomami.

  • Foto do escritor: Hermes Vissotto
    Hermes Vissotto
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Infográfico mostra ligação entre mandante do crime e PMs investigados por assassinato; grupo ainda contava com informantes. — Foto: Reprodução
Infográfico mostra ligação entre mandante do crime e PMs investigados por assassinato; grupo ainda contava com informantes. — Foto: Reprodução

Mensagens e interceptações revelam militares negociando mortes encomendadas via PIX com empresários do garimpo ilegal e utilizando a estrutura do quartel da PM para monitorar ordens judiciais e prisões. Três sargentos foram afastados.  


1. O Retrato do Esquema: PIX, Pistolagem e Suporte Logístico

Uma investigação conduzida pelo Departamento de Inteligência (Deint) da Secretaria de Segurança Pública (Sesp-RR) e pela Delegacia-Geral de Homicídios (DGH) revelou o funcionamento de uma organização criminosa incrustada na Polícia Militar de Roraima.  


Financiados por empresários e operadores do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, os militares prestavam serviços que variavam desde o fornecimento de suporte logístico até ações diretas de pistolagem e execução de desafetos.  


Os repasses eram feitos via PIX e serviam para custear abastecimento de veículos, manutenção da frota do grupo, compra de armas de fogo não rastreáveis e amortização de empréstimos informais efetuados entre os próprios policiais corruptos.  


🔊 Áudio Interceptado (Sgt. Starley Vieira):"Nós temos que fazer essa p* amanhã de um jeito ou de outro, porque pelo menos o patrão dele já manda o Pix para nós, a gente tora essa p* aí e já se alivia."  


2. O Crime Estopim: A Morte de "Zé Roberto"

A engrenagem do grupo começou a ruir após o assassinato a tiros de José Roberto Souza da Silva (o "Zé Roberto"), ocorrido em maio de 2024, em Boa Vista.  

  • Quem era a vítima: Zé Roberto integrava a quadrilha do garimpo, mas mudou de lado e passou a atuar como informante da polícia, vazando rotas, esquemas financeiros e pontos de extração ilegal de ouro.  

  • Como o crime foi desvendado: Três dias após o homicídio, o sargento Starley Vieira da Silva foi abordado dirigindo um veículo com as mesmas características do carro usado na execução. A extração pericial de dados do celular do militar trouxe à tona conversas, áudios e planejamento completo das emboscadas.  


3. Organograma do Grupo Criminoso

Nome / Alcunha

Papel no Esquema

Situação Processual / Atual

Lidivan Santos dos Reis ("Patrão")

Mandante / Financiador: Empresário do garimpo no "Pupunha" e suspeito de tráfico de drogas.  

Apontado pela polícia como mandante do homicídio de Zé Roberto.  

Gilson Viana Gomes ("Mutum")

Articulador: Ex-PM com histórico em mais de 12 homicídios. Levantava a rotina da vítima.  

Morto em dezembro de 2024 dentro de garimpo ilegal na TI Yanomami.  

Sgt. Starley Vieira da Silva

Executor / Articulador: Buscava armas frias, negociava valores e organizava a logística.  

Afastado das funções operacionais; responde em liberdade.  

Sgt. Everson Brasil da Silva

Executor: Apontado nas conversas como participante das buscas e monitoramento da vítima.  

Afastado das funções; defesa nega participação e cita laudo balístico negativo.  

Sgt. Anemésio Silva da Cunha

Apoio / Execução: Negociava participação direta em execuções mediante pagamento.  

Afastado; cumpre pena no sistema prisional militar por outros crimes.  


4. A Negociação dos Homicídios: R$ 50 Mil por "Serviço"

Sargentos Anemésio da Cunha e Starley Vieira negociam execução de ex-comparsa do grupo financiado pelo garimpo em Roraima. — Foto: Reprodução
Sargentos Anemésio da Cunha e Starley Vieira negociam execução de ex-comparsa do grupo financiado pelo garimpo em Roraima. — Foto: Reprodução

Em trocas de mensagens instantâneas obtidas pela perícia do celular de Starley, o sargento Anemésio se ofereceu abertamente para ingressar no grupo de extermínio:  

  • Sgt. Anemésio: "Arrumou o 3º homem?"

      

  • Sgt. Starley: "Não"

      

  • Sgt. Anemésio: "Não vai precisar? Não me cabe aí na missão? Quanto pra cada?"

      

  • Sgt. Starley: "É 50 mil o serviço."

      

  • Sgt. Anemésio: "Amanhã nos falamos."

      

5. Infiltração e Espionagem Dentro dos Quartéis

Além das execuções sob encomenda, o grupo usava o acesso privilegiado às instalações da PM para monitorar mandados de prisão e investigações em curso contra aliados.  


O sargento Starley usava a sede do Comando de Policiamento da Capital (CPC) como base para acompanhar ordens judiciais. Em um dos áudios, ele relata a presença do Capitão Helton John Silva de Souza (preso em maio de 2024 por suspeita de envolvimento na morte de um casal de agricultores):  


🔊 Áudio Interceptado (Sgt. Starley):"O capitão Helton estava aqui por volta de 11h. Ficou por aqui esperando o advogado dele. Quando ele foi embora, caiu na mídia que foi decretada a prisão (...) agora ele não tem pra onde correr não, vão segurar ele. Ele estava aqui no CPC agora a pouco falando com a gente."  


(Nota da reportagem: A investigação da Polícia Civil destacou que não há qualquer evidência de relação nem colusionismo entre o Capitão Helton John e o grupo criminoso dos sargentos).

  

6. Posições Oficiais e Defesas

  • Polícia Militar de Roraima (PM-RR): Informou que instaurou Conselhos de Disciplina contra os três sargentos (Anemésio, Starley e Everson). O procedimento garante ampla defesa e contraditório. Os militares foram afastados das funções e passam por avaliação de junta médica física e psicológica. Ao final da apuração, poderão ser expulsos da corporação.  

  • Defesa do Sgt. Everson Brasil: Negou categoricamente a participação do militar no assassinato de Zé Roberto. Destacou que o laudo de balística oficial descartou o uso da arma regulamentar do militar no crime e negou que ele tenha feito monitoramento da vítima. Reiterou que o Conselho de Disciplina é procedimento administrativo praxe e não condenação antecipada.  

  • Demais Citados: O espaço do Portal Hermes Vissotto permanece aberto para manifestação dos advogados de Starley Vieira, Anemésio da Cunha e Lidivan Santos dos Reis.  


O caso escancara a perigosa evolução da influência do garimpo ilegal sobre o aparelho de segurança pública de Roraima. Quando homens de farda trocam o dever constitucional pelo pagamento de PIX oriundo do ouro ilegal para praticar pistolagem, a fronteira entre a lei e o crime organizado deixa de existir. A transparência na condução do Conselho de Disciplina e o rigor na responsabilização criminal serão cruciais para a credibilidade das instituições no estado.


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