Uiramutã tem a pior qualidade de vida do país, aponta Índice de Progresso Social 2026.
- Hermes Vissotto

- 20 de mai.
- 3 min de leitura

Boa Vista, RR — Divulgado nesta quarta-feira (20), o Índice de Progresso Social (IPS) 2026 acendeu, mais uma vez, um alerta vermelho sobre as assimetrias regionais do Brasil. Pelo terceiro ano consecutivo, o município de Uiramutã, localizado no extremo Norte de Roraima, na tríplice fronteira com a Venezuela e a Guiana, registrou o menor índice de qualidade de vida entre as 5.570 cidades brasileiras.
Com uma pontuação de 42,44 (em uma escala que vai até 100), o município reflete o peso histórico do isolamento geográfico, da vulnerabilidade climática e de uma severa escassez de infraestrutura básica. No outro extremo do ranking nacional, a liderança ficou com Gavião Peixoto, em São Paulo, que atingiu 73,10 pontos, uma distância que traduz o tamanho do abismo socioeconômico que ainda fragmenta o país.
O peso do isolamento e o "custo Amazônia"
Chegar a Uiramutã é um desafio logístico. Separada da capital Boa Vista por cerca de 280 quilômetros, a viagem até a sede do município exige vencer estradas de terra irregulares que podem estender o trajeto por até 12 horas de carro. Esse isolamento cobra um preço alto no cotidiano dos 13.751 habitantes. Em março deste ano, o município registrou a gasolina mais cara de Roraima, batendo a marca de R$ 9,29 por litro, o que encarece o transporte de qualquer insumo básico, de alimentos a materiais de construção.
O IPS 2026, coordenado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) em parceria com a organização internacional Social Progress Imperative, avalia o desempenho social e ambiental através de 57 indicadores. O desempenho de Uiramutã foi puxado para baixo principalmente em dois eixos cruciais:
Necessidades Humanas Básicas (41,56 pontos): Onde são medidos saneamento básico, água potável, moradia e segurança.
Fundamentos do Bem-estar (49,32 pontos): Que engloba o acesso à educação formal, expectativa de vida e conectividade (sinal de internet e telefonia).
A vulnerabilidade do município é agravada pelo clima. Entre 2025 e o início de 2026, Uiramutã viveu sob decreto de situação de emergência após fortes enchentes destruírem pontes e isolarem mais de 60% da população. As cheias arrasaram plantações de mandioca de comunidades tradicionais, como a de Makuken. Como a farinha é a base da alimentação local e o ciclo da mandioca é longo, a segurança alimentar da região foi severamente afetada.
Economia tradicional vs. Indicadores oficiais
Proporcionalmente, Uiramutã é o município mais indígena do Brasil: 96,6% da população se autodeclara dessa forma, e quase a totalidade do território está inserida na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A cidade também registra o menor PIB per capita do país (R$ 11.985,64, segundo o IBGE) e tem 52,4% dos moradores vivendo com até meio salário mínimo.
Em nota enviada à reportagem, a Prefeitura de Uiramutã trouxe uma perspectiva importante sobre a leitura desses dados. A gestão ponderou que o alto índice de dependência de programas sociais, como o Bolsa Família, não se traduz mecanicamente em "extrema pobreza material crônica". Isso porque as 222 comunidades locais mantêm sistemas tradicionais de subsistência baseados em roças familiares (cultivo de milho, feijão, cará e mandioca) e em uma forte economia de troca nas feiras regionais, preservando os modos de vida tradicionais.
Apesar disso, o poder público municipal reconheceu os gargalos e cobrou maior apoio das esferas estadual e federal, com destaque para a necessidade de atuação da Funai. Por estar quase todo dentro de terra indígena, o município lida com limitações geográficas e legais complexas para a execução de obras de infraestrutura.
A prefeitura destacou que, desde 2021, construiu mais de 15 escolas municipais em substituição a estruturas precárias de taipa, abriu novos postos de saúde e, agora, trabalha em conjunto com a Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (CAER) e o Ministério da Saúde para ampliar a perfuração de poços artesianos nas áreas mais vulneráveis dentro do Plano Plurianual (PPA) 2026–2029.
O cenário em Roraima
O desafio do Progresso Social não é exclusivo de Uiramutã. Roraima aparece com outros dois municípios entre os 20 piores do país no IPS 2026: Alto Alegre (na 5.568ª posição) e Amajari (em 5.566º lugar).
Por outro lado, a capital Boa Vista desponta em uma realidade paralela, ocupando o 1.050º lugar nacional (19ª posição entre as 27 capitais brasileiras), com 64,49 pontos. No panorama geral dos estados, Roraima ocupa a 19ª posição (média de 59,65), conseguindo superar a média de quase todos os seus vizinhos da Região Norte, como Amazonas, Rondônia, Amapá, Acre e Pará, ficando atrás apenas do Tocantins.
O retrato de Uiramutã no IPS 2026 reabre o debate urgente sobre a necessidade de políticas públicas descentralizadas e desenhadas especificamente para a realidade amazônica. O progresso, como apontam os dados e os próprios moradores, não chegará apenas com repasses financeiros comuns, mas com soluções logísticas e estruturais que respeitem a floresta e as populações que nela habitam.

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