Profissionais denunciam demissões em massa e falta de transparência no DSEI Yanomami.
- Hermes Vissotto

- 19 de mai.
- 2 min de leitura

BOA VISTA – Trabalhadores que atuam na linha de frente da saúde indígena em Roraima denunciam uma onda de demissões sem justificativa formal, apontando falta de transparência, desorganização administrativa e suposta perseguição política na gestão do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-Y). Cerca de 30 profissionais teriam sido desligados recentemente em meio à persistente crise humanitária no território.
Entre os afetados estão enfermeiros, psicólogos, técnicos em enfermagem e Agentes de Combate às Endemias (ACE). Segundo relatos encaminhados por trabalhadores, os desligamentos ocorreram sem avaliações de desempenho ou reuniões prévias. Muitos afirmam ter recebido o aviso apenas por e-mail ou telefone, inclusive fora do horário de expediente.

Relatos apontam "jogo de empurra" e falta de acolhimento
Os profissionais demitidos relatam dificuldades para acessar documentos rescisórios e dar entrada em benefícios como o seguro-desemprego. Uma técnica de enfermagem relatou que, após ser desligada no início de maio, precisou cobrar a gestão local e enviar e-mails para Brasília para obter os papéis necessários dez dias depois.
Ainda segundo os denunciantes, há um impasse sobre a responsabilidade das demissões. A coordenação local do DSEI Yanomami alegaria que as listas de corte partiram diretamente de Brasília, enquanto instâncias federais afirmariam que os nomes foram definidos pela gestão no estado.
Outro ponto criticado é a falta de assistência humanizada. Os trabalhadores relatam o caso de um profissional que sobreviveu ao acidente de helicóptero ocorrido na região de Surucucu no ano passado e que, mesmo em tratamento de saúde mental e sob uso de medicação controlada, descobriu o desligamento ao checar o correio eletrônico. Entre os demitidos há também profissionais com décadas de experiência na região, alguns atuando na saúde Yanomami desde 1999.
Indicações políticas e cobrança por investigação
As denúncias também mencionam supostas contratações sem processo seletivo e indicações políticas no órgão, o que estaria gerando um clima de medo e receio de represálias entre os funcionários que continuam nos postos. Diante do cenário, os profissionais cobram uma investigação rigorosa sobre os critérios adotados nos desligamentos e pedem maior transparência na prestação de contas dos recursos emergenciais destinados à saúde indígena em Roraima.
O outro lado
Procurada para se posicionar sobre as reclamações, a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS) informou em nota que todos os processos de contratação e desligamento cumprem a legislação trabalhista vigente. A agência explicou que as demissões ocorrem exclusivamente mediante solicitação formal e justificativa da gestão do DSEI Yanomami ou da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde.
A AgSUS informou ainda que está realizando novas contratações para recompor as equipes de campo e que publicará, em breve, um novo edital de seleção pública para garantir a continuidade dos serviços de assistência no território Yanomami.
A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) também foi procurada para responder aos questionamentos sobre a procedência das listas de demissão e a gestão dos contratos, mas não enviou posicionamento até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

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